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23.08.2026·12h00

Despretensiosamente intencionada

por DAY LIMNS

Sei que, pra alguns, pode ser um pouco frustrante não saber o que esperar de mim. Pode até, quem sabe, não passar credibilidade ou confiança. Passei muito tempo tentando descobrir isso também. Mas, nessas minhas tentativas de me entender, precisei me olhar de fora. E como eu fiz? Através da minha música, da minha arte. Dando som, melodia, cor, imagens, criando cenários, atribuindo sentido e significado a tudo que me atravessava e me era conhecido.

E isso me ajudou a me entender, sim. Tudo que fiz até aqui. E, de certa forma, me salvou. Mas, honestamente, não quero reforçar sempre uma densidade que me deixa ancorada no fundo do mar. Eu não quero confundir profundidade com afogamento. Quero que seja mais como um aterramento. Às vezes, o que te salva numa fase é justamente o que você precisa "abandonar" pra ir pra próxima.

Lendo o livro do Dr. Joe Dispenza, li uma frase que deu nome pra um sentimento. Me dei conta de que me tornei um tanto quanto viciada em recriar padrões que me fazem viver uma vida que… eu meio que detesto. E, como um outro livro dele diz, estou tentando quebrar esse hábito de ser eu mesma — ou do que eu aprendi que sou por conta do passado — e, sei lá, reinventar um novo eu.

Acho que foi por isso que escrevi Sol. Quero projetar um eu mais leve, mais feliz, mais presente. Mas também não quero me enganar acreditando que felicidade é um estado permanente. Talvez eu queira, na verdade, aprender a estar mais presente até quando ela não estiver ali. Ainda assim, quero conseguir me imaginar assim.

A música me ajuda a visualizar, sim, mas como é difícil trazer pro corpo! Me parece exigir uma certa disciplina que eu não aprendi a ter ao longo da vida. E hoje estou tendo que aprender na marra, na tentativa do acerto e acertando a falha. Muitas falhas, diga-se de passagem. Hoje tento fazer com que elas não sejam mais transformadas em culpa, mas em responsabilidade pela mudança.

Gosto de pensar que tenho muita autoconsciência. Tanta que, por vezes, me irrita. Me sinto numa sala cheia de espelhos refletindo de volta todas as minhas versões: as que fui e as que posso ser. E, quanto mais eu me observo, mais possibilidades de mim aparecem. Diante de tantos eus, escolher quem sou no momento significa abandonar temporariamente todas as outras versões.

E essa sala de espelhos, então, se torna uma sala de espera.

Paralisada, me autoanaliso, me confundo, me amo, me odeio. Me sinto, me confronto, me encanto comigo mesma. Por vezes, queria que todas as possibilidades desaparecessem pra que eu não tivesse outra escolha a não ser: ser.

Ah, costumo dizer que a consciência pode se tornar a sala mais elegante do medo e, honestamente, tem sido assim pra mim. E acho que romantizo isso um pouco.

Fico nesse lugar imaginário, nos cenários que criei pra mim — os bons e os ruins —, mas solitária, do jeito que aprendi nos últimos anos. O que foi ótimo pra quem não sabia como ficar sozinha. Mas agora isso já não parece fazer muito sentido.

Tenho desejado me perceber pelo olhar do outro, que, ahhhhhh!!!, também não deixa de ser mais espelhos! Mas agora, pelo menos, que seja a céu aberto.

Mas de nada vale se a motivação muda e os hábitos continuam os mesmos. É como dar murros em ponta de faca. Nos últimos dias, pensei que nunca mais ia poder usar a minha voz. E isso aconteceu enquanto eu vinha alimentando um estilo de vida que não está tão compatível com quem eu, de fato, quero ser. Excessos. Pra se ter noção, a ideia de perder a minha voz me parece pior do que perder meu pai. E isso pode soar insensível, mas são mortes diferentes.

Curiosamente, perder o meu pai me fez integrar uma parte de mim que veio dele e que eu não aceitava. Foi uma perda que, de algum jeito, também me devolveu uma parte de mim. Perder a minha voz, por outro lado, me parece a morte de toda e qualquer possibilidade de ser e existir nesse mundo. Como se eu perdesse justamente a ferramenta através da qual consigo continuar me descobrindo, me transformando, chegando até o outro.

Não quero que isso aconteça.

Mas também não quero apenas usar a voz pra me entender e me explicar. Passei muito tempo fazendo isso. Quero usá-la pra falar com você, aí. Talvez menos como quem diz "olha tudo que descobri sobre mim" e mais como quem simplesmente diz: eu estou aqui. E você?

Quero ser despretensiosamente intencionada assim.

comentários (1)

  • leticia21/09/2026, 01:23

    Uau.voce é tanto pra mim, me vejo TANTO em tuas palavras. Obrigada pelo blog. Pelas músicas. Pela arte. Todo dia tu me salva de mim mesma.