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30.08.2026·21h30

O corpo é meio burro pra metáforas

por DAY LIMNS

Mudando tudo pra cuidar de tudo. Não tem jeito, é isso mesmo. Tenho um certo talento, como sabido, em chegar aos limites, às pontas dos icebergs derretidos, e me deixar virar água enquanto ele se desfaz no calor das minhas decisões. Me impressiona, mesmo sendo um tanto quanto esperado, vindo de mim. Mas dessa vez, não tem mais jeito. Não tenho escolha. Ironicamente, a melhor coisa que pode acontecer pra uma pessoa fadada pelas estrelas a ser geminiana é não ter escolha. Me dê escolhas e eu quero todas.

Acho que viver não deve ser à toa, mas isso pode confundir uma pessoa. Isso não pode significar me atolar em decisões ruins como se eu estivesse enfiando os meus dois pés e mãos em um lamaçal movediço só pra tentar dar um toque mais cinematográfico à minha vida. Talvez eu tenha confundido uma vida interessante com uma vida difícil. Ou pior: talvez eu tenha aprendido a reconhecer que estou viva quando alguma coisa está acontecendo intensamente o suficiente pra me obrigar a sentir muito, a sentir tanto até que aquilo me defina, mas me definha. A linha é tênue.

É meio constrangedor pensar nisso porque, olhando de fora, parece óbvio. Você não precisa quase morrer pra perceber que está viva. Não precisa quase perder pra entender que quer. Não precisa chegar no último minuto pra descobrir que se importa. Não precisa esperar o corpo gritar uma coisa que ele provavelmente já estava cochichando há algum tempo. Mas eu tenho um problema com cochichos. O cochicho é um bicho-papão. Me irrita de um jeito infantil. Gosto de grandes acontecimentos. De histórias que parecem histórias. Da reviravolta. Daquela sensação de que alguma coisa está prestes a mudar tudo.

Só que tudo muda o tempo inteiro e, na maior parte das vezes, sem trilha sonora. Apesar de achar que vivo só pra ter motivo pra criar alguma.

Cuidar de tudo é um pouco anticlimático. Dormir direito. Comer direito. Ir embora. Dizer não. Fazer a mesma coisa amanhã porque fez bem hoje. Repetir. Que palavra pouco sedutora. Entediante. Repetir. Tenho mais facilidade em recomeçar do que continuar. Recomeçar tem alguma coisa de épico, de página em branco, de nova temporada. Continuar exige uma disciplina silenciosa que ninguém aplaude e, pior, que às vezes nem eu percebo.

Talvez seja essa a mudança de tudo. Não mudar tudo.

Que ódio.

Mas também não quero transformar isso em mais uma dessas grandes decisões que tomo num domingo e que, na terça-feira, já viraram uma versão muito bonita de mim existindo só na minha cabeça. Tenho talento pra isso também, na verdade, é quase um dom. Imagino futuros com uma riqueza de detalhes impressionante e acho que meu corpo deveria simplesmente entender o briefing e acompanhar.

Não acompanha.

O corpo é meio burro pra metáfora. Ele quer dormir. Quer respirar. Quer água. Quer descanso. Quer que eu pare de fazer algumas coisas que sei que me fazem mal mesmo quando consigo inventar argumentos maravilhosos pra continuar fazendo. E talvez cuidar de tudo seja começar por esse lugar meio óbvio, pouco poético e irritantemente concreto.

Eu sei exatamente o que vou ter que abandonar. Essa palavra me incomoda porque parece definitiva e eu tenho problemas com coisas definitivas. Talvez eu não precise abandonar. Algumas coisas só não cabem mais. Pessoas, hábitos, excessos, versões minhas, possibilidades. E crescer é descobrir que poder escolher qualquer coisa não significa precisar escolher tudo.

O que é engraçado porque comecei dizendo que não tenho escolha.

Talvez eu tenha.

Não sei. Ainda parece muito cedo pra transformar isso numa conclusão e, conhecendo a minha capacidade de fazer de qualquer epifania um evento cinematográfico, prefiro não confiar tanto em mim assim.

Mas, por enquanto, estou aqui. Tentando não derreter.

comentários (4)

  • Lorrynne21/09/2026, 00:30

    Pesou o clima Day

  • Vi21/09/2026, 01:25

    A gente sempre sabe o que precisa deixar de levar com a gente, mas nem sempre estamos prontos para encarar e esse texto meu amo é uma preparação sua, tirando o peso da mala! Meu eu fadado a ser uma escorpiana intensa entende cada palavra com particularidades, com o sentimento de tal e mergulha junto contigo me afundo um pouquinho na maravilha do sentir tudo intensamente.. e sabe o maravilhoso a gente sempre encontra nos mesmo em casa mergulho em si🫶🏻🫠 Não derrete se não se perde com o oceano! Te amo e recomece com um novo texto logo hihi🕊️❤️

  • Lilian Göhl21/09/2026, 01:25

    essa mulher mora dentro da minha cabeça mesmo!

  • Wevely Andrade21/09/2026, 05:36

    É exatamente isso.Ter muitas opções diante de si e nao saber por onde começar.